1. Introdução
As trombofilias correspondem a um grupo heterogêneo de condições que promovem hipercoagulabilidade, aumentando o
risco de eventos tromboembólicos, principalmente tromboembolismo venoso (TEV), incluindo trombose venosa profunda
(TVP) e embolia pulmonar (EP). Essas condições podem ser classificadas em hereditárias ou adquiridas, sendo
frequentemente multifatoriais, com interação entre predisposição genética e fatores ambientais.
No contexto das trombofilias hereditárias, destacam-se as deficiências dos anticoagulantes naturais — antitrombina (AT),
proteína C (PC) e proteína S (PS) — que exercem papel fundamental na regulação negativa da cascata de coagulação. A
deficiência quantitativa ou funcional dessas proteínas compromete o controle da geração de trombina, favorecendo a
formação de trombos. A prevalência dessas alterações na população geral é relativamente baixa; entretanto, sua importância
clínica é significativa, especialmente em pacientes com trombose em idade jovem, recorrente ou em locais incomuns.
2. Bases fisiopatológicas da anticoagulação natural
A hemostasia fisiológica é mantida por um equilíbrio dinâmico entre os sistemas pró-coagulantes e anticoagulantes, que
atuam de forma integrada para garantir a formação controlada do coágulo e sua posterior limitação. Nesse contexto, os
mecanismos anticoagulantes naturais desempenham papel essencial na regulação da cascata de coagulação, prevenindo a
propagação excessiva da geração de trombina.
A antitrombina constitui o principal inibidor das serinoproteases da coagulação, exercendo sua ação sobre a trombina (fator
IIa) e sobre os fatores ativados Xa, IXa e XIa, sendo um componente central na modulação da atividade coagulante.
Paralelamente, a proteína C, após sua ativação pelo complexo trombina-trombomodulina na superfície endotelial, atua na
inativação dos cofatores Va e VIIIa, reduzindo a amplificação da cascata de coagulação. A proteína S, por sua vez, atua como
cofator da proteína C ativada, potencializando sua ação anticoagulante e contribuindo para a eficiência do sistema regulador.
Alterações quantitativas ou funcionais em qualquer um desses componentes comprometem o controle fisiológico da
coagulação, resultando em persistência da geração de trombina, fenômeno central na fisiopatologia do trombo. Esse
desequilíbrio favorece a formação e a propagação de eventos trombóticos, especialmente se há fatores de risco adicionais.
3. Indicações clínicas para investigação
A investigação laboratorial de trombofilias está indicada em cenários clínicos específicos, tais como:
A investigação está relacionada à estratificação de risco e definição de conduta terapêutica, além da confirmação diagnóstica.
4. Avaliação laboratorial das trombofilias hereditárias
4.1 – Antitrombina (AT) – A antitrombina é uma glicoproteína plasmática sintetizada predominantemente no fígado, sendo
reconhecida como o principal inibidor fisiológico da coagulação. Atua por inibição de diversas serinoproteases, com destaque
para a trombina (fator IIa) e o fator Xa, desempenhando papel central no controle da geração de trombina. A avaliação
laboratorial é preferencialmente realizada por meio de ensaios funcionais cromogênicos, que permitem a mensuração da
atividade biológica da proteína. As deficiências de antitrombina podem ser classificadas em:
relativo de tromboembolismo venoso, frequentemente com apresentação precoce e recorrente. A interpretação dos
resultados deve considerar importantes variáveis pré-analíticas. Níveis reduzidos podem ser observados de forma transitória
na fase aguda da trombose, devido ao consumo da proteína. Da mesma forma, condições como coagulação intravascular
disseminada (CIVD), hepatopatias e síndrome nefrótica podem cursar com diminuição dos níveis de antitrombina. O uso de
heparina também pode interferir na dosagem, especialmente em métodos funcionais.
4.2 – Proteína C (PC) – atividade funcional – A proteína C é uma glicoproteína dependente de vitamina K, sintetizada no fígado,
que exerce importante função anticoagulante após sua ativação pelo complexo trombina-trombomodulina. A proteína C
ativada (APC) atua inativando os cofatores Va e VIIIa, reduzindo a geração de trombina.A avaliação laboratorial é realizada, preferencialmente, por ensaios funcionais, que podem ser baseados em métodos
coagulométricos ou cromogênicos. As deficiências de proteína C são classificadas em:
A deficiência de proteína C está associada a risco trombótico moderado, sendo mais relevante quando combinada a outros
fatores de risco adquiridos ou hereditários. Diversos fatores podem interferir na interpretação dos resultados. O uso de
antagonistas da vitamina K, como a varfarina, promove redução dos níveis de proteína C, podendo simular deficiência. Além
disso, estado inflamatório agudo, evento trombótico recente e disfunção hepática podem impactar os níveis da proteína C.
4.3 – Proteína S (PS) – avaliação funcional e livre – A proteína S é uma glicoproteína vitamina K dependente que atua como
cofator essencial da proteína C ativada, potencializando sua ação anticoagulante. No plasma, encontra-se em duas formas:
cerca de 40% na forma livre, fração biologicamente ativa, e cerca de 60% ligada à proteína C4b-binding protein,
funcionalmente inativa. A investigação laboratorial pode incluir:
Devido à complexidade da proteína S e à sua interação com outras proteínas plasmáticas, a avaliação isolada pode ser
insuficiente. Dessa forma, a interpretação adequada frequentemente requer a análise combinada dos testes, em conjunto
com o contexto clínico. A proteína S apresenta maior suscetibilidade a variações fisiológicas e patológicas. Níveis reduzidos
são observados durante a gestação, uso de estrogênios (incluindo contraceptivos orais), em estados inflamatórios e em
doenças hepáticas. Além disso, trata-se de um marcador com elevada variabilidade biológica, o que reforça a necessidade de
cautela na interpretação dos resultados e, em alguns casos, confirmação em nova coleta.
5. Outros exames complementares
Uma investigação laboratorial abrangente das trombofilias deve contemplar, além da avaliação dos anticoagulantes naturais,
a pesquisa de alterações genéticas e marcadores associados a estados protrombóticos adquiridos.
Nesse contexto, destacam-se as mutações genéticas mais prevalentes, como a mutação do fator V Leiden, que resulta em
resistência à ação da proteína C ativada, e a mutação G20210A do gene da protrombina, associada ao aumento dos níveis
plasmáticos de protrombina e, consequentemente, à maior geração de trombina. Ambas representam importantes fatores
de risco para tromboembolismo venoso, especialmente em indivíduos jovens ou com história familiar positiva.
A investigação também deve incluir a avaliação de trombofilias adquiridas, com ênfase na pesquisa dos anticorpos
antifosfolípides, incluindo, anticoagulante lúpico, anticardiolipina e anti-β2, marcadores para o diagnóstico da síndrome
antifosfolípide (SAF), condição autoimune associada a eventos trombóticos arteriais, venosos e a complicações obstétricas.
A dosagem de homocisteína plasmática pode ser considerada, uma vez que níveis elevados estão associados à disfunção
endotelial e aumento do risco trombótico, embora seu papel como fator de risco independente ainda seja discutido.
6. Momento ideal da coleta e limitações
A interpretação adequada dos testes laboratoriais para investigação de trombofilias depende do contexto clínico e,
sobretudo, do momento em que a coleta é realizada. De modo geral, recomenda-se que a investigação seja realizada fora da
fase aguda do evento trombótico, uma vez que esse período está frequentemente associado ao consumo de proteínas
anticoagulantes e a alterações transitórias nos níveis plasmáticos. Sempre que possível, a coleta deve ser programada após
a suspensão da anticoagulação, considerando o tipo de fármaco utilizado e sua interferência nos ensaios laboratoriais. Diversos
fatores podem interferir nos resultados laboratoriais. O uso de anticoagulantes, incluindo heparinas, antagonistas da
vitamina K (varfarina) e anticoagulantes orais diretos (DOACs), pode impactar a atividade ou a dosagem das proteínas
avaliadas. Adicionalmente, a repetição dos exames pode ser necessária para confirmação diagnóstica, especialmente diante
de resultados alterados, para diferenciar deficiências de alterações transitórias, secundárias a condições associadas,
fisiológicas ou patológicas, como gestação, estados inflamatórios sistêmicos e doenças hepáticas.
7. Aplicabilidade clínica dos exames
A investigação laboratorial das trombofilias, quando guiada por critérios clínicos bem definidos, é fundamental para o manejo
de pacientes com eventos tromboembólicos, permitindo uma abordagem individualizada que auxilia na estratificação de
risco e na definição de estratégias terapêuticas e preventivas, como duração da anticoagulação e medidas em situações de
maior vulnerabilidade. Além disso, desempenha papel relevante em pacientes em idade reprodutiva e pode justificar o
rastreamento familiar em casos de predisposição hereditária, sendo essencial que os resultados sejam interpretados em
conjunto com o contexto clínico para evitar condutas inadequadas.
Edição 06. Junho/2026. Assessoria Científica – Lab Rede
Referências: Middeldorp S et al. American Society of Hematology 2023 guidelines for management of venous thromboembolism: thrombophilia testing. https://doi.org/10.1182/bloodadvances.2023010177.