AVALIAÇÃO DE RISCO CARDIOVASCULAR EM PESSOAS COM SOBREPESO E OBESIDADE


A prevalência global da obesidade mais do que dobrou nas últimas quatro décadas. Reconhecida como uma condição ligada a muitas doenças crônicas, a obesidade impacta diretamente na qualidade de vida e na redução da expectativa de vida.

A obesidade também é um dos principais determinantes da doença cardiovascular (DCV). Estudos epidemiológicos prospectivos demonstram que a obesidade está associada a um risco elevado de eventos de doença arterial coronariana (DAC) e de mortalidade cardiovascular (CV). Sua influência ocorre de forma indireta, através do aumento de fatores de risco CV tradicionais como diabetes tipo 2 (DM2), dislipidemia (DLP) e hipertensão arterial sistêmica (HAS), mas também por efeito direto do estado inflamatório induzido pela adiposidade na estrutura e função cardíacas.

Representantes de 5 sociedades médicas brasileiras (ABESO, SBD, SBEM, SBC e ABS) elaboraram uma diretriz para tratamento da obesidade e prevenção da doença cardiovascular, cujas recomendações de avaliação e metas estão resumidas a seguir.

1. Todos os indivíduos adultos acima de 18 anos, com sobrepeso ou obesidade, devem ter o risco CV em 10 anos avaliado e categorizado em relação à Doença Aterosclerótica Cardiovascular (DASCV) e à Insuficiência Cardíaca (IC), com o objetivo de orientar o tratamento da obesidade.

2. O uso do escore de risco PREVENT para avaliação do risco CV em pessoas com sobrepeso ou obesidade cujo IMC é menor que 40kg/m2, e a idade entre 30 e 79 anos, que estejam em prevenção primária, no modo que inclui a medida da HbA1c, utilizando o risco DASCV total e o risco IC em 10 anos.

3. Deve-se categorizar o risco CV dos indivíduos com obesidade e sobrepeso como: DSCV BAIXO, MODERADO ou ALTO e IC

ALTO.

 

4. O rastreamento para IC através da dosagem dos peptídeos atriais (NT-proBNP ou BNP) ou por método de imagem deve ser considerado em pessoas com ALTO RISCO IC.

 

EXAMES ADICIONAIS PARA IC

  • Pessoas com pró-peptídeo natriurético tipo B N-terminal (NT-proBNP) e o peptídeo natriurético tipo B (BNP) elevados, ou com sintomas de IC, deverão ser submetidas à investigação diagnóstica complementar.
  • A dosagem de NT-proBNP e o BNP deve ser contextualizada na presença da obesidade, uma vez que níveis mais baixos são observados em comparação a indivíduos sem obesidade.
  • O limite de NT-proBNP para exclusão de IC (<125 ng/L) apresenta sensibilidade baixa (67%) em indivíduos com IMC >35 kg/m2. Nestes, um limite de exclusão mais baixo (50 ng/L) mostrou ter maior sensibilidade (93% a 98%). Por outro lado, o limiar de inclusão >220 ng/mL obteve maior especificidade (82% a 89%).
  • O uso isolado de NT-proBNP (ou BNP) para orientar o diagnóstico de IC em indivíduos com obesidade deve ser criterioso.

Na presença de sintomas e sinais clínicos de IC, mesmo com valores normais, a investigação por métodos diagnósticos complementares é recomendada.

  • Em situações como a fibrilação atrial, pode ser necessária a investigação adicional com ecocardiograma, eletrocardiograma ou holter 24h.

NOTAS IMPORTANTES

1. QUANDO REESTRATIFICAR PESSOAS COM RISCO MODERADO

  • Pessoas com risco moderado pelo escore PREVENT, com necessidade de reestratificar o risco DASCV por história familiar de DAC precoce, devem realizar o escore de cálcio coronário (CAC), por meio de tomografia computadorizada do tórax.
  • As pessoas com CAC >100 Ag (sem diabetes) e as com CAC >10 Ag (com diabetes) devem ser estratificadas para RISCO ALTO. Pessoas com CAC = zero continuam no risco moderado se houver diabetes.
  • Pacientes que apresentam diabetes tipo 2 há mais de 10 anos ou doença renal crônica (taxa de filtração glomerular estimada (TFG) <45 ml/min/1,73m2 e/ou albuminúria, com relação albumina/creatinina (RAC) na urina >30 mg/g) devem ser considerados de RISCO ALTO, independentemente do escore PREVENT.

 

2. PACIENTES COM DASCV E/OU IC ESTABELECIDA – O escore PREVENT não deve ser utilizado para estratificação de risco de pacientes com DASCV e/ou IC já diagnosticadas. Essa ferramenta foi desenvolvida para prevenção primária.

 

RASTREAMENTO DE FATORES DE RISCO PARA DASCV E IC

  • Hipertensão Arterial – Para o rastreamento e diagnóstico de hipertensão arterial em adultos, deve ser usado o critério de pressão sistólica ≥ 140 mmHg e/ou diastólica ≥ 90 mmHg em duas ou mais medições em diferentes ocasiões. Para pré-hipertensão, considerar pressão sistólica 130-139 mmHg e/ou diastólica 85-89 mmHg.
  • Dislipidemia – O rastreamento universal para hipercolesterolemia é preconizado para crianças a partir dos 9 anos de idade e, se houver história de hipercolesterolemia na família, após os 2 anos de idade. O rastreamento deve ser realizado com medida de colesterol e triglicerídeos.
  • Diabetes tipo 2 – Todos os indivíduos com sobrepeso ou obesidade devem ser rastreados para diabetes tipo 2, com glicemia em jejum e hemoglobina glicada simultaneamente, a partir dos 35 anos. Antes dos 35 anos, o rastreamento é obrigatório se houver pelo menos um fator de risco adicional para diabetes (glicemia de jejum prévia elevada (>100 mg/dL), diabetes gestacional prévio, mãe de recém-nascido grande para idade gestacional, história familiar de diabetes tipo 2 em parente de 1o grau, história de DCV clínica ou DCV subclínica, hipertensão arterial, tratada ou não, HDL <35 mg/dL, triglicerídeos > 250 mg/dL, síndrome de ovários policísticos, presença de acantose nigricans, Sedentarismo, Doença hepática esteatótica metabólica (MASLD ou MASH), FINDRISC alto ou muito alto). O rastreamento também poderá ser considerado antes dos 35 anos, a critério do médico assistente e em comum acordo com o paciente.

 

METAS

Em adultos, com sobrepeso ou obesidade, e RISCO MODERADO, é recomendada a redução de pelo menos 5% do peso no momento da avaliação para redução de fatores de risco CV, HAS, Dislipidemia, atrasar ou evitar o Diabetes tipo 2.

Para redução de eventos CV em adultos, com sobrepeso ou obesidade cujo risco é MODERADO/ALTO, deve ser considerada uma redução de pelo menos 10% do peso máximo já atingido na vida, com manutenção da perda a longo prazo. Em indivíduos com obesidade e Fibrilação Atrial (FA) paroxística ou permanente, a redução de pelo menos 10% do peso é recomendada para reduzir o risco de complicações relacionadas à FA. OBS. Recomendações terapêuticas não foram abordadas neste informativo.

Edição 07. Julho/2026. Assessoria Científica – Lab Rede

Referências: Cynthia M Valerio et al. DIRETRIZ CONJUNTA DA ABESO, SBD, SBEM, SBC e ABS. Diretriz para tratamento da obesidade e prevenção de doença cardiovascular. DOI: 10.29327/5738826.2025-1

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