Rastreamento do Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1)


Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes

O diabetes mellitus tipo 1 (DM1) é uma doença autoimune caracterizada pela destruição das células beta pancreáticas, produtoras de insulina, com produção de autoanticorpos anticélulas beta pancreáticas, que podem ser detectados no sangue e utilizados como marcadores bioquímicos. Os autoanticorpos habitualmente usados são antitirosina fosfatase (anti-IA2 ou ICA 512), antidescarboxilase do ácido glutâmico (anti-GAD), anti-insulina (IAA) e antitransportador de zinco(anti-ZnT8).
Há recomendação que o diagnóstico de DM1 seja estabelecido quando houver dois ou mais autoanticorpos anticélulas beta pancreáticas positivos, independentemente de hiperglicemia. Essa definição é seguida pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). O desenvolvimento do DM1 pode ser dividido em estágios, conforme na Tabela 1.
Para o estadiamento, é essencial avaliar o perfil glicêmico, com dosagem de glicemia de jejum (GJ), hemoglobina glicada (HbA1c), teste de tolerância à glicose por via oral (TTGO) e/ou monitorização contínua da glicose (CGM). Para crianças, o TTGO deve ser realizado com 1,75 g/kg de glicose, até o limite máximo de 75 g. Na pesquisa de autoanticorpos anticélulas beta pancreáticas, a avaliação laboratorial do anti-ZnT8 apresenta disponibilidade limitada e custo elevado, uma estratégia razoável pode ser dosar inicialmente os demais três anticorpos e reservar a dosagem do anti-ZnT8 quando apenas um dos demais for positivo, com o objetivo de confirmar ou excluir o diagnóstico de DM1 pré-clínico, caracterizado por 2 ou mais autoanticorpos positivos.

Tabela 1. ESTÁGIOS DO DIABETES MELLITUS TIPO 1
EstágioCaracterística
Estágio 1Dois ou mais autoanticorpos positivos, confirmados, sem alteração da glicose ou sintomas.
Estágio 2Dois ou mais autoanticorpos positivos, confirmados, sem sintomas, sem necessidade de insulina, com disglicemia, porém sem preencher critérios para diabetes. (tabela 2)
• Estágio 2 A: Parâmetros próximos à normalidade.
• Estágio 2 B: Parâmetros próximos aos critérios para diagnóstico de DM.
Estágio 3Hiperglicemia de início recente, preenchendo critérios para DM, com ou sem sintomas, e um ou mais autoanticorpos positivos. (tabela 3)
• Estágio 3 A: Sem sintomas.
• Estágio 3 B: Francamente sintomático e com necessidade imediata de insulina.
Estágio 4DM1 de longa duração.

O termo DM1 pré-clínico refere-se à presença de dois ou mais autoanticorpos positivos, confirmados, sem alterações glicêmicas definidas como disglicemia, as quais não atendem aos critérios diagnósticos para diabetes mellitus (DM), conforme indicado na Tabela 2.

Tabela 2. CRITÉRIOS PARA CARACTERIZAR DISGLICEMIA NO DIAGNÓSTICO DE DM1 – ESTÁGIO 2
Parâmetro AvaliadoCritério Diagnóstico
Glicemia de jejum100–125 mg/dL
Estágio 2A: 100–115 mg/dL
Estágio 2B: 116–125 mg/dL
Glicemia de 2h no TTGO140–199 mg/dL
Glicemia em pontos intermediários do TTGO (30, 60 ou 90 min)≥ 200 mg/dL
Hemoglobina glicada5,7–6,4%
Aumento da HbA1c (em prazo de 3 a 12 meses)Em 10% ou mais
Monitorização contínua da glicose (CGM)Tempo acima de 140 mg/dL ≥ 10%
  • Para o diagnóstico de DM1 em estágio 2, é necessário haver dois ou mais autoanticorpos anticélulas beta
    pancreáticas positivos, ausência de sintomas, ausência de necessidade de insulina, e um dos critérios acima.
  • Todos os critérios precisam ser confirmados.
  • Quando a disglicemia for identificada no CGM, o segundo exame confirmatório deve ser realizado por um método diferente.
  • Nos demais casos, o mesmo exame deve ser utilizado para confirmar o diagnóstico, desde que seja realizado em
    uma segunda amostra independente.
Tabela 3. CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS PARA DM1 – ESTÁGIO 3
ParâmetroCritério Diagnóstico
Glicemia de jejum≥ 126 mg/dL
Glicemia 2 horas após TTGO≥ 200 mg/dL
Hemoglobina glicada≥ 6,5%
Glicemia ocasional com sintomas≥ 200 mg/dL
  • Para o diagnóstico de estágio 3, é necessário haver dois exames que preencham critérios para DM, exceto se houver
    sintomas típicos de hiperglicemia (poliúria, polidipsia, noctúria, perda de peso não-intencional) com glicemia
    ocasional ≥ 200 mg/dL.
  • Casos assintomáticos são diagnosticados como estágio 3A e sintomáticos, como estágio 3B.
  • Nas pessoas com DM1 estágio 3B, insulina deve ser prontamente iniciada.
  • No estágio 3A, a conduta deve ser individualizada.

RECOMENDAÇÕES PARA RASTREAMENTO DE DM1

1. Oferecer o rastreamento para DM1 aos parentes de primeiro grau de pessoas com DM1, através da dosagem de
autoanticorpos, cujo risco de desenvolver DM1 é 15 vezes maior que a população geral, para: 1) reduzir o risco de
cetoacidose diabética (CAD); 2) permitir diagnóstico precoce; 3) fornecer educação em diabetes; 4) identificar
candidatos à participação em pesquisas clínicas; 5) selecionar indivíduos para o uso de medicamentos
imunomoduladores aprovados por agências reguladoras para atrasar a evolução do DM1 para o estágio 3.
2. É recomendado que o rastreamento do DM1 pré-clínico, na população geral, seja realizado pela dosagem de
autoanticorpos anticélulas beta pancreáticas, com métodos validados. Caso haja positividade de um ou mais
autoanticorpos, o exame deve ser confirmado em teste adicional com nova amostra de sangue, para evitar diagnósticos equivocados por positividade transitória.
3. Quando houver viabilidade técnica, disponibilidade financeira e infraestrutura, deve-se considerar o rastreamento
de DM1 entre 2 e 4 anos, com repetição entre 6 e 8 anos e entre 10 e 15 anos, se os resultados forem negativos.
4. Em maiores de 15 anos, pode-se considerar o rastreamento em uma única oportunidade, sem repetição para os
testes negativos, devido ao baixo risco de soroconversão tardia.
5. É recomendado fornecer suporte psicossocial e educação em diabetes para pessoas com diagnóstico de DM1 préclínico e suas famílias.
6. Realizar testes para avaliação do perfil de glicose em todas as pessoas com dois ou mais autoanticorpos positivos,
para definir o estágio da doença.
7. Pessoas com diagnóstico de DM1 pré-clínico devem ser encaminhadas para acompanhamento com especialista.
8. Para crianças com um único autoanticorpo positivo, confirmado com teste adicional, deve-se considerar a repetição das dosagens de autoanticorpos com avaliação do perfil glicêmico, instituindo o monitoramento periódico de acordo com a faixa etária: 1) para < 3 anos semestralmente nos primeiros três anos e anualmente por mais três anos; 2) para crianças > 3 anos: anualmente por três anos.
9. Para crianças com DM1 pré-clínico, considerar o monitoramento da glicose durante doenças intercorrentes (por
glicemia capilar e/ou CGM, quando disponível) e avaliações glicêmicas periódicas, conforme a faixa etária e o estágio
do DM1, visando detecção precoce de progressão e de anormalidades da glicose que necessitem tratamento imediato.
10. Para adultos com um único autoanticorpo positivo e confirmado, detectado em rastreamento para DM1, deve-se
considerar monitoramento glicêmico anual, caso haja fatores de risco (parente de 1º grau com DM1, alto risco
genético, disglicemia ou história de hiperglicemia em período de estresse). Se não houver fatores de risco, o
monitoramento pode ser trienal.
11. Para adultos com DM1 pré-clínico, deve-se considerar o monitoramento glicêmico periódico, para permitir
diagnóstico precoce de DM 1 estágio 3 e reduzir o risco de CAD, de acordo com o estágio da doença: 1) no estágio 1:
anual por 5 anos, passando para bienal a partir de então; 2) no estágio 2: semestral.
12. Oferecer participação em estudos clínicos de intervenção, sempre que disponíveis, a para pessoas com DM1 préclínico, visando modificar a história natural da doença.

 

Assessoria Médica – Lab Rede. Edição março/2026

Referência: Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes. Rastreamento do diabetes mellitus tipo 1 (DM1). DOI: 10.29327/5738823.2025-1

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