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2 de fevereiro de 2016

Sinal amarelo



   Sinal amarelo Levantamento do Ministério da Saúde revela que brasileiros relaxaram na prevenção e no uso da camisinha e estão cada vez mais expostos às doenças sexualmente transmissíveis

   As doenças sexualmente transmissíveis estão cada vez mais presentes na vida dos brasileiros e poucos se deram conta da gravidade de não praticar sexo seguro. Levantamento publicado no final de 2009 pelo Ministério da Saúde mostra que 10 milhões de brasileiros já apresentaram algum tipo de DST ao longo da vida sexualmente ativa.

   Analisando o comportamento sexual de pessoas entre 15 e 64 anos, a pesquisa descobriu que os homens são os mais afetados por essas doenças no País. Mais de 6,6 milhões de brasileiros já foram vítimas de pelo menos um tipo de DST ao longo da vida. O dado mais alarmante é que aproximadamente 18% deles nunca procuraram nenhum tipo de tratamento adequado para o problema. Entre as mulheres esse índice é menor: 11,4%. Apesar disso, cerca 3,7 milhões de mulheres já tiveram ao menos um tipo de doença sexualmente transmissível durante a vida.

   Outro dado estarrecedor é que, ao invés de se protegerem, os brasileiros estão praticando mais sexo casual e usando menos camisinha. Na edição de 2004 da pesquisa, o Ministério da Saúde constatou que 51,6% da população fazia uso frequente de preservativos. Na edição de 2009, esse número caiu para 46,5%. “É a consequência da falta de investimento do Estado em políticas de prevenção e identificação do problema”, diz o ginecologista Mauro Romero, chefe do departamento de DST da Universidade Federal Fluminense. “Campanha de prevenção e distribuição de camisinha em massa só no carnaval não garante eficiência de políticas públicas”, argumenta o especialista.

O BRASIL É UM DOS PAÍSES EM QUE A POPULAÇÃO MAIS TEM INFORMAÇÃO SOBRE OS RISCOS DO SEXO DESPROTEGIDO. NO ENTANTO, O USO DE PRESERVATIVOS CAI

   O médico defende campanhas mais agressivas e frequentes para falar também de outras doenças, além da Aids. Segundo ele, uma pessoa que desenvolve algum tipo de DST tem até 18 vezes mais chances de contrair o vírus HIV. Membro da Sociedade Brasileira de DST, Mauro Romero também denuncia a falta de estrutura dos hospitais da rede pública para o atendimento dos pacientes portadores de doenças sexualmente transmissíveis. “Muitos profissionais de saúde não conhecem e não conseguem identificar que o paciente sofre de clamídia, por exemplo. A infecção aparece geralmente no colo do útero das mulheres e afeta mais de 90 milhões de pessoas no mundo todos os anos. Segundo o próprio Ministério da Saúde, está presente em 9,3% dos exames laboratoriais das mulheres grávidas brasileiras. Como é que uma infecção dessa magnitude é desconhecida dos profissionais de saúde?”, reclama o médico. “A clamídia ou a tricomoníase, por exemplo, são detectadas apenas com exames laboratoriais e coleta de material de análise. Se os hospitais não oferecem essa estrutura, como é que podemos identificar esse tipo de problema e impedir que o paciente transmita para outra pessoa?”, questiona.

FALTA ORIENTAÇÃO

   A reclamação do especialista foi constatada na própria pesquisa do Ministério da Saúde, que identificou que os pacientes com indícios de DST nem sempre recebem as orientações adequadas nas unidades de saúde espalhadas pelo Brasil. Apenas 30% dos homens e 31,7% das mulheres tiveram a recomendação de fazerem o teste de HIV nesses postos de atendimento, mesmo apresentando sinais claros de doenças sexualmente transmissíveis. “Falta formação acadêmica e, sobretudo, reciclagem e orientação profissional para os trabalhadores do setor de saúde. Não dá para falar em políticas públicas de combate a qualquer doença se nem o serviço de saúde funciona adequadamente para dar suporte aos pacientes”, comenta o ginecologista Mauro Romero.

   O Brasil é um dos países em que a população mais tem informação sobre os riscos do sexo desprotegido. De acordo com a pesquisa do Ministério da Saúde, mais de 96% da população sabe que o uso do preservativo é a melhor maneira de evitar a infecção pelo HIV. Segundo uma outra pesquisa realizada pela ONU em 64 países, apenas 40% dos homens e 38% das mulheres de 15 a 24 anos tinham conhecimento exato sobre como evitar a transmissão do HIV. Menos da metade do número do Brasil.

     Contudo, os brasileiros estão se descuidando e deixando o uso da camisinha de lado. Quanto mais jovem, maior a chance de o cidadão fazer uso da camisinha. A pesquisa sobre o comportamento sexual dos brasileiros apurou que os jovens de 15 a 24 anos de idade adotam mais o preservativo em todas as situações. Cerca de 68% das pessoas nessa faixa etária declaram o uso da camisinha nas relações com parceiros casuais. Entre os maiores de 50 anos a proporção não chega a 38%. “Os jovens cresceram num mundo em que a Aids é uma realidade. Eles ouvem alertas em casa, nas escolas, na televisão e, portanto, estão menos vulneráveis. O problema é que, conforme a relação vai ficando mais estável, tanto os jovens quanto os adultos se descuidam da camisinha”, afirma a diretora do Programa Nacional de DST/Aids, Mariângela Simão. De acordo com ela, a cada ano a probabilidade de o cidadão não usar camisinha nas relações estáveis aumenta 1%.
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“O fato de terem relações estáveis não significa que os parceiros sejam monogâmicos. E quando ocorrem relações extraconjugais, a maioria deles, cerca de 63%, não usa preservativo. Isso significa que, mesmo com um único parceiro, os brasileiros estão vulneráveis ao problema das DSTs”, analisa Mariângela Simão.

     Essa situação de vulnerabilidade expõe as pessoas com vida sexual ativa não apenas à Aids, que é a mais grave e temida DS T, mas também a dezenas de enfermidades que podem causar males igualmente nocivos à saúde. De acordo com o Programa Nacional de DST/Aids, a clamídia é a doença que mais afeta os brasileiros todos os anos. São quase 2 milhões de brasileiros que se descobrem vítimas da doença anualmente. A enfermidade se manifesta, geralmente, como uma infecção do colo do útero entre as mulheres, podendo até haver também envolvimento do útero e das trompas. No homem, a clamídia provoca uma inflamação da uretra, o canal que faz a ligação entre a bexiga e a extremidade do pênis, atrapalhando a saída da urina.
REALIDADE DAS DSTs NO BRASIL
     A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que ocorram cerca de 340 milhões de casos de DST por ano no mundo. No Brasil, os números sobre as doenças sexualmente transmissíveis são os seguintes:i173119

PERIGO DAS DSTs
     Outra característica da clamídia é o silêncio. Cerca de 3/4 das mulheres e metade dos homens infectados não apresentam os sintomas mencionados. Quando aparecem, esses sintomas se manifestam geralmente entre uma e três semanas após a contaminação. Caso não sejam tratadas adequadamente ou identificadas a tempo, as infecções por clamídia podem progredir para sérios problemas reprodutivos e inclusive tornar a pessoa infértil. “É uma doença identificada apenas com coleta de material humano para análise laboratorial. Por isso, é preciso o exame clínico anual, especialmente após os 40 anos”, lembra o ginecologista Rubens Matsuo, representante do Programa de DST/Aids de São Paulo.

     O HPV também pode ser considerado uma dessas doenças silenciosas. Ela afeta pelo menos 685 mil brasileiros anualmente e, segundo o Ministério da Saúde, o período de incubação do mal pode durar até vinte anos no organismo infectado. O aparecimento das primeiras verrugas pode acontecer em até dois ou oito meses após as primeiras manifestações do problema, dependendo do tipo do vírus, de acordo com o professor titular da Universidade Federal Fluminense Mauro Romero, autor do livro HPV, que bicho é esse?.

     O médico é um dos maiores especialistas de HPV do País e alerta para as consequências graves que a doença pode causar. “Caracterizado pelo aparecimento de verrugas nas partes íntimas ou pela alteração celular no tecido da vulva, do pênis ou do ânus, esse vírus pode evoluir para o câncer, caso não seja tratado adequadamente”, diz o médico. “Existem no mundo pelo menos 200 tipos de vírus do HPV catalogados pela medicina, que são classificados por baixo ou alto risco de câncer. Quanto mais cedo a doença for identificada, melhor a forma de tratamento”, completa.

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     O especialista explica que, apesar de haver vacinas contra a doença disponíveis no Brasil, o vírus ainda não tem cura. Dependendo do caso, também já existem no mercado brasileiro algumas pomadas que fazem a remoção das verrugas, feridas ou neoplasias por meio químico, sem a necessidade de intervenções cirúrgicas. Porém, o vírus apenas adormece no organismo após a remoção, perdendo a força e o poder de infectar outras pessoas. A eliminação do agente estranho pode demorar meses antes de sumir totalmente do organismo.

     No caso das vacinas, até agora elas não tiveram 100% da sua eficiência comprovada no País e, portanto, ainda não foram incorporadas ao Programa Nacional de Imunizações (PNI). Técnicos do Inca, da Anvisa e das indústrias farmacêuticas trabalham exaustivamente para tentar ao menos delimitar a eficiência da vacina contra todos os tipos de vírus que geram o câncer no colo do útero e o prazo de imunização, que pelos estudos preliminares apontam para no máximo cinco anos.

     Por hora, a vacina serve como auxiliar no tratamento e enfraquecimento do vírus. O importante, segundo os especialistas consultados pelo Guia da Farmácia, é a prevenção. “O uso da camisinha é indispensável para a garantia da integridade física em qualquer relação sexual. A população deve fazer o uso frequente em qualquer relação estável que ofereça risco. É o maior aliado da vida sexualmente saudável, seguido dos exames de rotina”, lembra o ginecologista Rubens Matsuo, representante do Programa de DST/Aids de São Paulo.

Referências:
Guia da Farmácia – Sinal amarelo, Fev 2010 – http://www.guiadafarmacia.com.br. Disponível em http://www.guiadafarmacia.com.br/edicao-207/2117-sinal-amarelo Acesso em 02 de Fev. de 2016.